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O dia da minha morte


Eu costumava ter medo da morte, ou pelo menos do vazio que vem com ela. Fechar os olhos e de repente, mais nada. Poucas coisas me assustam e, apesar de acreditar em outras vidas, morrer é uma delas! Mas, como o derradeiro dia chega para todos, num dia ensolarado, desses dias comuns que se levanta para ir ao trabalho ou a escola, eu morri.

Naquela manhã de janeiro, o dia estava singularmente lindo, com o sol já no meio do céu, queimando a pino. Andava com minha prima Elisa por lugares bem conhecidos para nós, mas tudo estava muito antigo; pessoas com celulares ultrapassados, ônibus antigos nas vias públicas abarrotados de passageiros e edifícios estranhamente arcaicos. O futuro de onde viemos não eram mais usados celulares, a comunicação era telepática e as pessoas eram mais educadas e cordiais, se tele-transportavam para onde desejassem. Elisa achava tudo aquilo engraçado, principalmente o fato de as pessoas ainda fazerem coisas com tanta dificuldade, quando no futuro era tudo mais fácil e melhor. Sabíamos que não deveríamos contar nosso segredo para não alterar o curso das coisas.

-Elisa, precisamos voltar. Já́ estamos no passado a tempo demais. – alertei-a. -Calma, prima. Você sabe que tudo tem um propósito. Embarcamos na estação de “viagem no tempo” mais próxima que localizamos num Portal de Comunicação da região. O veículo corria no ar, sem trilhos e nem rodas, pulava entre pontes móveis de ligação entre os anos. De repente, ao saltar mais uma ponte de Época, ele não alcançou a outra extremidade e caiu num vácuo. Apertei os olhos e segurei firme a mão de Elisa, enquanto engolia em seco a perspectiva do que viria a seguir.

Ao sentir o impacto do veículo nas águas gélidas, esperei ver as estranhas e assustadoras criaturas que habitam as profundezas do rio da morte que viriam para nos devorar, enquanto a consciência ia e vinha entre presente e passado, como relâmpago caindo em qualquer lugar. Vi raios de sol penetrando a água fria, luz única que rompia a apavorante escuridão. Tanta coisa para temer e minha mente estranha só pensava nas tais criaturas que viriam comer nossa carne. Ao meu redor, os outros viajantes do tempo dormiam, estariam mortos? Fechei meus olhos e esperei. Nada aconteceu. Novamente abri os olhos esperando o que viria, e como numa crise de ansiedade, em que o ar não chega ao nariz, boca seca sem saliva, eu a vi. Pensei em Oxum: “Não posso ir, estou com medo.”

Olhos vermelhos e arregalados, chamuscando raios amarelos como um sol forte, numa pele estranhamente azul, os cabelos negros horrivelmente arrepiados, tinham caveiras humanas sangrando pelos olhos, penduradas em cada ponta crespa, me fixavam num olhar de morte pelo retrovisor. Paralisei, por medo ou respeito, não sei. A horrenda mulher continuava me olhando e seus olhos gritavam me alertando sobre algo que eu precisava ouvir. Antes de poder ter algum pensamento lógico sobre o que estava vivendo, o ônibus deu um solavanco e suspendeu-se no ar, saindo do fundo do rio.

Todos os passageiros acordaram do transe e saíram do veículo como se nada tivesse acontecido. Avistei Elisa já na rua e fui ao seu encontro, ofegante:

- Eu a vi! Justo ela! Tanta Deusa para me mostrar que a morte não existe e me receber do outro lado, tinha que ser Kali? Tanta Deusa para me receber, justo Kali, a mais assustadora.

Fui ao encontro de minha prima Elisa, que já me aguardava fora do ônibus e, contei a ela minha experiência de quase morte.

- Kali veio até mim quando acreditava não precisar, quando tive que encarar a morte foi ela quem me recebeu, veio mostrar minha morte e me trazer à vida. Me fez compreender que a morte física não é o mais importante. Romper laços sim, saber morrer para renascer.


@lilith_venusgrimorio



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